Um dia qualquer no cabeleireiro.

25 nov

Imagem

Ir ao cabeleireiro pra mim é tarefa semanal. Dependendo da época (e da neura), até duas vezes por semana. E não tem nada de muito espetacular apesar de ser quase uma terapia. Mas é sempre tão parecido que nunca costumo ter momentos muito memoráveis lá. Até que um dia fui surpreendida.

Eu: – Oi, tudo bem?

Ele: – Oi, você é Gabriela né? Sou Junior, sou novo aqui!

Eu: – Oi Junior, quero fazer uma hidratação.

Ele: – Vamo hidratar essa cabeleira então.

Eu: – Mas só nas pontas tá?

Ele: – Não, vamo hidratar isso aí tudo.

Eu: – Não, meu cabelo é super oleoso, se você hidratar a raiz vai dar pra fritar uma coxinha, confia em mim.

Ele: – Ta, vamo hidratar tudo. E depois se a gente mudar? Cortar uma franjinha?

Eu: – Não, vou parecer retardada.

Ele: – Um corte moderno, Chanel?

Eu: – Nem… pareço aqueles abajures de canto de sala. Compriiiido e com uma coisa ao redor, sabe?

Ele: – Aiii que chata, vamos repicar esse cabelo todinho? Dar vida?

Eu: – Putz, é que meu cabelo é tão fino, acho que fica meio estranho.

Ele: – Magina bee, vai ficar bafo, pra você ter aquela cara de que “ai, vim correndo”, sabe?

Eu: – Correndo de onde?

Ele: – Sei lá, pela Marginal. “Cheguei, vim correndo, to fresca”.

Eu: – Humm, acho que vou ficar como estou mesmo.

Ele: – Meio assim, Maria Madalena arrependida?

Eu: – Isso. Não acha que ta bom?

Ele: – Ai, essa criança aqui tá me tirando do sério.

Eu: – Qual? Ela não é filha da manicure, que é sua amiga?

Ele: – É, ela pintou minha unha. Que nem a cara dela. Criança demoníaca, catarrenta.

Eu: – Viu Junior… não precisa secar não, meu cabelo é bem liso, seca bem sozinho.

Ele: – Ah, que isso bee, vou fazer uns cachos aqui, vai rola algo hoje a noite?

Eu: – Não, to tranquila hoje, vou no máximo ao cinema.

Ele: – Ahhh, nunca se sabe, o whatsapp apita e tudo muda. Fica online aí que ce vai ver. Vou fazer os cachos.

Eu: – Mas hoje vou fazer alguma coisa bem sussa mesmo, amanhã cedo vou correr.

Ele: – Correr? Sabe quando eu corro? Quando falam “open bar até as 00:00” aí eu saio correndo que nem uma doida. Aliás, to saindo com um bofe, aposto que ele corre. Saí com ele e era todo trabalhado na vida saudável, só come coisa ruim. Daí me fiz a saudável né? Comi uma saladinha.

Eu: – E chegando em casa?

Ele: – Mandei uma picanha e tudo que vi na minha frente. Ai, acho que não vai dar certo esse afair, deixa ele saber que sou essa trashera só.

Eu: – Ah, de repente ele gosta, por você ser assim diferente.

Ele: – Ai, não to dando conta desses bambolês na tua orelha.

Eu: – Ué, por que não disse antes? Eu tiraria!

Ele: – Ah, sei lá, tava tímida no começo, agora que a gente é tipo prima, posso falar. Aliás, cor linda a sua, quem fez?

Eu: – Obrigada. Foi o Kamura.

Ele: – A índia velha? Sei ele é bom mesmo. O que você tá lendo?

Eu: – É um livro da Kabbalah, sabe?

Ele: – Nossa, eu bem vi sua pulseira, mas não sabia se era dos Santos do Bonfim ou da Kabbalah. Me dá uma pulseirinha dessa?

Eu: – É que você precisa ir lá, alguém tem que fazer uma reza pra colocar…

Ele: – Ah que chique. Eu tenho uma amiga que um belo dia, a gente quis se libertar sabe? A gente tava em Londres e ela quis sair sem escova. Daí uma hora não deu, eu falei “Ah Bee, se libertou mas tá uó. Parece uma doméstica, que apanha do marido. Tó aqui um elástico”.

Eu: – E você se libertou como?

Ele: – Eu tava de saia longa preta, blusa preta, meu dreads e um óculão.

Eu: – Ah, tipo uma mãe de santo de luto?

Ele: – Era mais pra McQueen. Não né? Não me libertei também.

Eu: – Tá, mas o que tem a ver com a Kabbalah?

Ele: – Que Kabbalah bem?

Eu: – É que você me perguntou.

Ele: – Ih, larga esse livro. Dá uma Kabbalahda e uma twitada, uma Kabbalahda e uma twitada.

Eu: – É que eu não tenho Twitter.

Ele: – Pronto, ta lindíssima.

Eu: – Obrigada.

Ele: – Volta aqui hein?

Eu: – Volto sim.

Ele: – Mas semana que vem, não daqui a 8 anos né? Pelo amor.

Eu: – Deixa comigo. (Piscadela).

Anúncios

7 Respostas to “Um dia qualquer no cabeleireiro.”

  1. Gabriela Marques 25/11/2013 às 16:57 #

    Logo quando postei o texto, um amigo me mandou esse BRILHANTE comentário por e-mail. Não pude deixar de registrar aqui. É bem genial.

    Li o post e me lembrei de escrever algo que me corroi (gay) literalmente, que nem vc tinha com as palavras como “ampolinha”. Toda vez que vou ao “cabelereiro” (nao sei pq caralho nao me deixam chamar de barbeiro que acho bem mais masculo, ainda mais quando se screve) eu fico muito puto. Puto literal. E entrar, botar aquele Kimono de merda, arrumar a bola, deitar naquela bosta de cadeira que sempre detona a porra da minha nuca (pescoco ao contrario), a mina (sempre a mais feia e tatuada com aquele cabelo rosa do verao passado) e vem a famosa pergunta filha da puta que me emputece enquanto a agua e ligada e aquele pingo escorre pelo kimono ate o anus: -“ta boa a temperatura da agua?”!!!!

    Ai e que mora o problema. Vc so quer relaxar. Curtir de olho fechado, para evitar o demonio sapatao imaginando Scarlet, Kim, etc mas vc sabe que e uma pergunta retorica filha da puta. Nao tem escapatoria. Invariavelmente a temperatura da agua vai varia uns 30 graus, para cima E para baixo durante o processo mais estressante que e tentar lavar a porra do cabelo sem usar as maos. Se voce responder (como eu faco) SIM, otima, imdeiatamente a temperatura sobe uns 30 graus e queima o seu couro cabeludo e logo apos essa escaldagem baixa 45 graus e faz cubos de gelo mentholado. E vice-versa.

    Entao, pq caralho nao bota uma placa e diz: nossa barbearia nao tem nenhum controle sobre a temperatura das nossas torneiras e nao nos responsabilizamos por descalpar ou congelar qualquer pensamento libidinoso que vc possa ter nesse momento. Sem mais. A Direcao?

  2. Fatima Marques 25/11/2013 às 18:12 #

    adorei!!!!!!!Kkkkkkkkk, to de prova filha….nossa, nesse dia ele (ela) tava atacado(a)!!!! Mas foi divertido né??????

    • Gabriela Marques 02/12/2013 às 11:33 #

      Hahahaha você estava do meu ladinho ouvindo tudo!
      Ele é atacado, não é que ele tava! Hahaha. amo ele!

  3. Marilia Sant´Ana 25/11/2013 às 22:46 #

    Oi Gabi!

    Não lembro como cheguei até o blog, mas estudamos juntas no Pueri, até a 7ª série, depois me mudei pro interior e perdemos o contato. Você e a Luca eram minhas melhores amigas :)

    Eu adoro seus textos! Os assuntos e a forma como você escreve são demais hahahaha me divirto e me identifico super! Sempre leio!

    Muito bom saber que está bem!

    Um grande bj!

    • Gabriela Marques 02/12/2013 às 11:34 #

      Ma!
      Que delicia de surpresa ver você aqui! Claro que eu lembro de você. Éramos um grude só!
      Obrigada pelo elogio e fico muito feliz em saber que gosta do blog.
      Bom saber de você também. Mande notícias e volte aqui mais vezes.
      Beijo enorme

  4. Marcela 29/11/2013 às 11:54 #

    Hahaha, muito bom ! Adoro seu jeito de escrever! Estou lendo um livro que a autora tem um humor parecido com o seu. Chama “Preciso rodar o mundo”, da modelo Michelli Provensi. Ela fez um clip sensacional pra divulgar o livro, muito vício.

    Alias, vc tmb deveria pensar na idéia de um livro :)
    beijos

    • Gabriela Marques 02/12/2013 às 11:45 #

      Ma;
      Amei esse clipe, quero muito ler esse livro, deve ser incrivel!
      Quanto ao livro, tenho pensado nisso sim, quem sabe um dia! ;)
      Beijos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: